A velha máxima garante-nos que gostos não se discutem. Nem sempre se aplica – e ainda bem. Porque tudo se deve discutir. Mas também há alturas em que se instala uma unanimidade que não vem das regras impostas de fora ou de algum tipo de constrangimento pessoal. É o que acontece aqui, quando o carro descreve a última curva à esquerda pelo acesso de terra batida e o olhar converge na silhueta elegante deste edifício, enquadrada por árvores centenárias e duplicada pelo espelho de água onde uma pequena estátua repousa, convidando-nos ao silêncio.

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Estamos no Palácio de Mateus, uma das mais icónicas imagens do país e, para lá de qualquer discussão, dos seus edifícios mais belos. À luz de um soalheiro dia de Outono, surge-nos com a familiaridade das coisas que nos são próximas. Sentimo-nos em casa. E esse sentimento não é monopólio da alma portuguesa. Milhares e milhares de estrangeiros (70 por cento dos 100.000 visitantes anuais) revêem-se na silhueta elegante deste edifício monumento nacional que corre o mundo no rótulo de um dos vinhos mais famosos de Portugal: o Mateus Rosé.

Ironia das ironias, o vinho rosado das garrafinhas bojudas (criadas na década de 1940 sob inspiração dos cantis militares) não é feito aqui. O nome e imagem foram comprados pela Sogrape, as uvas vêm de outros locais. Em Mateus resta a inspiração, uma história para contar e o novo impulso para a produção de um rosé da casta Alvarelhão com os métodos tradicionais. O turista não encontra aqui o Mateus Rosé, mas pode saborear o “pai” daquele vinho suave que – em tantos casos – inspirou momentos pessoais marcantes.

“Ouvimos muitas histórias dessas, de pessoas que passaram anos e anos sonhando com o momento em que pudessem conhecer pessoalmente o edifício do rótulo”, conta José Carlos Fernandes, director técnico e enólogo da Casa de Mateus. E se o vinho serve, muitas vezes, como elo emocional, há todo um mundo para descobrir nesta propriedade de mais de 400 hectares, ali paredes meias com uma cidade (Vila Real) capital de distrito, mas a todo um mundo de distância.

Mateus pode ser sinónimo de vinho para muita gente, mas é, acima de tudo, uma fundação privada, criada para proteger e divulgar o património histórico da casa e para fomentar a actividade cultural. Isso e salvaguardar a vocação agrícola da propriedade (que engloba ainda outras quintas, entre as destinadas exclusivamente à vinha e as que se abrem ao turismo).

Entre o universo pragmático da agricultura e o mundo etéreo da criação cultural, estas quatro paredes estabelecem uma sólida ligação, da mesma forma que unem numa só linha elegante e funcional a solidez dos alicerces ao delírio estilístico dos pináculos que se estendem para o céu. Mateus é, literalmente, um sítio onde a cultura e a história têm os pés assentes na terra.

http://www.revistadevinhos.pt/artigos/show.aspx?seccao=enoturismo&artigo=14443&title=casa-de-mateus&idioma=pt

01 julho, 2014 03:19 | Luís Francisco (texto)