Foram três dias de “Transições”: urbanas, tecnológicas e ecológicas.

O seminário “Transições”, inserido no projeto “Lugar Comum”, começou com a inauguração da exposição Lugar Comum, na Autarquia de Vila Real, com seis grandes painéis onde o espaço de Mateus se insere no contexto da região, uma visão do geral para o pormenor, como referiram os curadores da exposição Ivo Domingues e Joaquim Moreno: “Partimos da escala quase atmosférica de ver muito longe e olhar para o território, à escala muito íntima de estar sentado a tocar violoncelo no túnel de cedros da Casa de Mateus, na intimidade do território. Um lugar para ser comum tem que ser partilhado. O que tentámos com estas ideias é que estes espaços possam ser pensados em conjunto, e de muitas maneiras e em diferentes escalas, para deixarmos alguma coisa ao futuro”.

Álvaro Domingues foi o geógrafo da Faculdade do Porto convidado para falar sobre “Paisagem, Rural e Urbano”, desconstruindo palavras e mostrando de forma muito clara que o conceito que as palavras acarretam “chocam” muitas vezes com a realidade visível. O que é, é o que existe, e não os nomes que se lhe dão. « Com palavras designamos o mundo, e é através dessas mesmas palavras que deciframos as imagens que o representam. Aquilo que chamamos paisagem é, precisamente, uma das formas de abarcar, de tornar inteligível ou de comunicar aquilo que vemos. Quando acrescentamos adjectivos, classificamos, avaliamos. « Rural » e « urbano » são adjectivos que carregam consigo imaginários que possuem tanto de claro e cristalino, como de completa confusão; além do mais, são pólos opostos de uma suposta dicotomia”, disse. Com a plateia cheia, a conversa estendeu-se a debate com moderação de Adriano Sousa, vereador da Câmara Municipal de Vila Real e Teresa Albuquerque, da Fundação da Casa de Mateus.

Os dois dias seguintes foram mais práticos com seminários dedicados à transição tecnológica e à transição ecológica. António M. Cunha, da Universidade do Minho, antecipou o futuro falando da robotização, da rarefação das fronteiras entre o físico e o virtual, e da ética, mostrando que “todas estas revoluções não fazem sentido se não melhorarem a qualidade de vida das pessoas. Nós estamos a chegar a um ponto que o  impacto tecnológico na vida das pessoas é tão grande, que os valores têm que estar articulados, de forma a que surjam muitos lugares comuns de acordo com as heranças culturais”. Já Fernando de la Rosa, da Foxize School, dirigiu uma oficina prática em torno do impacto das tecnologias nos negócios, no marketing e na comunicação. “Se temos uma empresa temos que estar na internet. Outra coisa é se temos que estar em todas as redes sociais. E a resposta é não. Depende. Estar por estar, é sempre caro. Temos que saber o que queremos…”.

Nesta linha de Transições, o seminário terminou com a transição ecológica à procura da sustentabilidade. Uma conversa dirigida por Jonathan Minchin, do Instituto de Arquitetura Avançada da Catalunha. “Podemos aprender muito com a ecologia, porque tem muito a dizer. A interação de humanos e da ecologia tem a tecnologia pelo meio, é uma interface para trabalhar em conjunto com a ecologia”.

Presente nos três dias, Alfons Cornella do Institute of Next, foi contextualizando os temas dentro do projeto “Lugar Comum”. Um projeto desenvolvido pela Fundação da Casa de Mateus  e co-financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito do programa Oficinas do Conhecimento. “Eu acho que ao fim destes três dias ficou bastante claro que estamos numa época para construir ligações entre as coisas, mais do que aprofundar as especificidades dos assuntos. Em todas as áreas em que estivemos a refletir nestes dias, as transições entre o urbano e o rural, o analógico e o digital, a transição ecológica é que estamos num momento de fronteira, que se apresenta de diferentes formas”, referiu Teresa Albuquerque, da Fundação da Casa de Mateus. Transições foi o nome escolhido para este conjunto de iniciativas: “Transições é um bom nome porque tem movimento, e nós estamos num momento de movimento e não num momento em que possamos determinar claramente onde começa uma coisa e acaba a outra. Estamos exatamente numa espécie de um limbo onde se colocam muitas perguntas e que exigem de nós um esforço de procura que nas gerações anteriores não foi tão premente”.