8 - 14 de Junho de 2020
Casa de Mateus | Mateus Online

A memória e a sua transmissão são as matérias de que se faz um arquivo. O da Casa de Mateus reúne documentos fundamentais que nos permitem um vislumbre sobre a história de Portugal e das relações da Casa com os mundos de cada um dos seus tempos.

Ao longo desta Semana Internacional que o Conselho Internacional dos Arquivos instituiu para nos lembrar a nobreza do gesto de deixar memória para os vindouros e a utilidade prática de a eles recorrer para imaginar o futuro, levantamos o véu sobre este arquivo centenário com uma série de publicações temáticas; recebemos, em entrevista online, o testemunho de Armando Malheiro, investigador do Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, implicado na construção do Sistema de Informação da Casa de Mateus; e teremos ainda tempo para acrescentar outros testemunhos de quem conhece este Arquivo muito de perto.

 

PROGRAMA:

Dias: 8, 10, 12 e 14 de Junho | 2020

A construção do Arquivo da Casa de Mateus

Publicações na página Facebook da Fundação da Casa de Mateus

 

8 de Junho de 2020

Preservação documental: a recomendação do 4º Morgado de Mateus (1722-1798)

O esforço de ordenação e de descrição documental levado a cabo por D. Luís António de Sousa Botelho Mourão, 4º Morgado de Mateus, baseava-se nos princípios racionalistas tão em voga no seu tempo, que concederam ao Cartório da Casa uma estrutura temático-funcional, no sentido de agilizar a recuperação da informação. O princípio da ordem para o bom uso foi mantido nas gerações subsequentes, de tal forma que o trabalho desenvolvido por D. Luís António se manteve inalterável até aos nossos dias. Devido a esse cuidado, os documentos do Cartório foram assumindo progressivamente a sua função de memória da Família e da Casa, nos contextos regional e nacional.

O rigor da preservação da documentação da Casa de Mateus está diretamente associado ao cuidado «quase obsessivo» que o 4º Morgado de Mateus teve com o «Cartório» da Casa. Recomendava «com veemência e insistência que não desorganizassem nem fizesse desorganizar os seus papéis», como nos conta a historiadora brasileira Heloísa Bellotto, provavelmente a mais empenhada estudiosa do período em que D. Luís António assumiu a Capitania e o Governo-Geral de São Paulo.

Esta preocupação arquivística, apanágio da Casa de Mateus, repercutiu-se nas gerações seguintes, conforme pode ser visto nas instruções que deixou o 1º Conde de Vila Real ao seu filho, em 23 de Maio de 1846: «cuidado nos livros e estampas, e a observação pontual da prática por mim estabelecida de não tirar nenhum livro da livraria sem que se ponha no seu lugar um papel». O seu resultado, após séculos de preservação, é um acervo de aproximadamente 1 milhão de documentos que permite traçar não apenas a história da família e de outras famílias que nela confluíram, mas também muitos dos grandes episódios, visíveis ou subterrâneos, que atravessaram a História desde então

 

9 de Junho de 2020

O Sistema de Informação Casa de Mateus: desafios e contributos

Entrevista com Armando Malheiro

Armando Malheiro, investigador do Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, implicado na construção do Sistema de Informação da Casa de Mateus, fala-nos da evolução histórica e das novas tendências das Ciências da Informação, da natureza própria de um Arquivo de família, dos desafios da digitalização…

 

 

 

10 de Junho de 2020

Luís de Bivar Guerra e o Arquivo da Casa de Mateus

Imbuído do espírito reformista que aplicou a toda a Casa  e prolongando a atenção secular que a família sempre conferiu aos seus arquivos, D. Francisco de Albuquerque, 6º Conde de Vila Real, 5º Conde Melo, 3º Conde Mangualde e instituidor da Fundação da Casa de Mateus, convidou, nos finais da década de cinquenta do século XX, o investigador e bibliotecário-arquivista Luís de Bivar Guerra para proceder à reclassificação da documentação arquivística.
Luís de Bivar Guerra (1904-1979) foi sócio efetivo do Instituto Português de Heráldica, da Associação de Arqueólogos Portugueses, Académico de número da Academia Portuguesa de História, da Sociedade de Geografia de Lisboa, do Instituto Genealógico Brasileiro e associado do Colégio Brasileiro de Genealogia.
A relevância de seu trabalho como responsável do Arquivo da Casa de Mateus entre as décadas de 1950 e 1970 materializa-se na reclassificação que fez de toda a documentação, com o fim de a preparar para a abertura do Museu da Casa de Mateus, em 1961. Outro legado importante diz respeito à realização do inventário dos documentos do Arquivo, instrumento que permitiu, também, a identificação de documentos relacionados com o Brasil, do período em que D. Luís António, 4º Morgado de Mateus, foi Governador da Capitania de São Paulo.
Para além da sua importância enquanto conservador do Arquivo da casa de Mateus e dos cuidados que pôs no tratamento de toda a informação nele constante, Luís de Bivar Guerra foi também um eminente promotor da sua divulgação por meio de estudos e publicações: «O brasão dos morgados de Mateus» (1963); «A heráldica do Solar de Mateus» (1977); «D. Luís António de Sousa Botelho Mourão e a penetração no sertão paulista» (1982). Dava assim cumprimento pleno a uma das mais importantes missões estatutárias da Fundação da Casa de Mateus, instituída em 1970: «a catalogação e o estudo de todo o arquivo, promovendo a publicação do que nele se encontrar de interesse histórico, político, militar, social, económico e artístico», bem como a «admissão de estudiosos à consulta e estudo de todos os documentos e demais elementos de interesse que possua».
 #IAW2020
Fotografia: Inauguração do Museu da Casa de Mateus, 21 de Abril de 1961

 

 

11 de Junho de 2020 

Pessoas na História: a memória da comunidade na Casa de Mateus

Depoimento: João Neto

Qual o lugar das pessoas  na História e qual a importância da preservação da memória individual e coletiva produzida por quem não faz habitualmente as páginas dos livros de História?

Um aspeto muito interessante que nos ajuda a entender este tipo de conexões, são as relações que um Arquivo pode ter com a construção das ideias. Os documentos existentes no Arquivo da Casa de Mateus permitem-nos entender ideias que Peter Burke identificou aquando do estudo da Escola dos Annales, tão importante na historiografia atual. O exemplo de Witold Kula sobre a análise produtiva em quintas da Polónia no século XVII, ajuda-nos a pensar de que forma a aristocracia se comportava. A própria correspondência trocada entre D. Luís António e Dona Leonor atestam ideias que passam por inúmeros campos da história.

 

 

 

12 de Junho de 2020

Sistema de Informação Casa de Mateus

 

Em 2001, a Fundação da Casa de Mateus, graças ao Programa Operacional da Cultura, deu início ao tratamento em larga escala do Arquivo, privilegiando a sua classificação, digitalização e restauro, sob a coordenação científica de Armando Malheiro da Silva, sob a tutela do Ministério da Cultura e da Fundação Calouste Gulbenkian.

Neste âmbito, foram recuperados, tratados e digitalizados mais de 800.000 documentos, foram informatizadas 6087 fichas bibliográficas e foram inventariadas cerca de 1400 peças das coleções museológicas da Fundação. Criaram-se assim bases de dados digitais para os documentos, para os livros e para as coleções. Procedeu-se ao restauro de documentos em pergaminho e papel, de livros e dos móveis e objetos de arte. Criaram-se espaços para o tratamento do Arquivo, para o Inventário e para as Reservas.

A análise indutiva da informação produzida desde os finais do século XVI permitiu a estruturação de um Sistema de Informação, baseado em critérios orgânico-funcionais. Construído a partir da linha evolutiva da Família, fixa a natural sucessão de administradores da Casa de Mateus, integrando vários subsistemas de informação de natureza familiar – procedentes das alianças matrimoniais, doações, entre outros – e de natureza institucional – decorrentes do desempenho de atividades profissionais de vários membros da Família.

O Sistema de Informação da Casa de Mateus emerge como a representação de um quadro policromático composto por informação produzida nos mais diversos quadrantes. Deu origem, em 2005, à publicação em livro do “Catálogo do Arquivo da Casa de Mateus” e, em 2006, do respectivo CD-Rom.

 

 

13 de Junho de 2020

O archival turn e o papel do arquivista na Casa de Mateus

Depoimento: Ricardo Mingorance

O depoimento debruça-se sobre a mudança de paradigma no que diz respeito ao papel do arquivista face aos desafios do mundo pós-moderno, assumindo uma participação mais ativa na preservação da memória social e coletiva, tornando os documentos mais dinâmicos e menos estáticos, retirando-os das suas prateleiras para a divulgação da história que contam as suas tintas. Neste sentido, propõe-se uma reflexão sobre a Virada Arquivística (Archival Turn) e a sua relação com o Empoderamento das Sociedades do Conhecimento.

Nas palavras de Eric Ketelaar (2017, p. 237), o «arquivamento de um documento é muito mais do que um armazenamento», entende-se que um arquivamento se trata do «processo e o produto da formação contínua de registos: desde a criação e captura de documentos até o sistema de manutenção de registos, até à sua gestão, descarte, uso e pluralização na sociedade».

Neste sentido, o papel do arquivista cada vez mais tem sido promover a documentação constante de um Arquivo numa dinâmica que caracteriza o documento como agente da sociedade, ou seja, o documento possui uma função social.

 

 

 

14 de Junho de 2020

Futuro do passado

As treze secções cronológicas em que se divide o Sistema de Informação da Casa de Mateus representam o encadeamento dos sucessivos administradores da Casa até à constituição da Fundação, em 1970. A esta coluna axial, vieram juntar-se numerosos acervos, sendo de destacar o da família Melo (que entrou na nona secção, com o casamento, em 1867, do 3º Conde de Vila Real com a 2ª Condessa de Melo) e o da família Mangualde, na secção 10 (resultado do casamento, na primeira década do séc. XX, da 5ª Condessa de Vila Real e 4ª Condessa de Melo com o 2º Conde de Mangualde).

A este conjunto, um manancial de documentos pessoais, documentos administrativos e documentos oficiais, juntam-se as impressionantes coleções de pintura ou de relíquias, os milhares de volumes que formam da Biblioteca da Casa de Mateus, ou ainda o acervo de mobiliário histórico, os objetos domésticos, utilitários, ornamentais ou simbólicos.

A memória trazida do passado, agregada assim num sistema de conhecimento que permite estabelecer relações, compreender singularidades e entrever os grandes ciclos da História, projeta-se no futuro através da ação cultural e educativa da Fundação da Casa de Mateus.

Terminada esta Semana Internacional dos Arquivos, convidamos os nossos visitantes, todos os públicos, todos os investigadores, todos aqueles cujo prazer da História se transforma em desejo de futuro, a persistir nesta relação, conhecendo melhor a Casa, o seu espólio, a sua programação permanente. Mergulhe em www.casademateus.pt. Viva Mateus!