Nas últimas duas décadas tem-se assistido a uma progressiva reavaliação da obra de Camões, em especial de Os Lusíadas, explorando-se as contradições internas do poema, colocando-se nova ênfase nas influências e na rivalidade de Camões com outros poetas, no diálogo com a Antiguidade Clássica e com os poetas ibéricos e italianos do século XVI. Publicaram-se monografias cujo carácter revolucionário decorreu de não obedecerem a um programa ideológico, com a inevitável repetição de lugares-comuns. Publicaram-se, e continuam a ser preparadas, edições de comentários inéditos ou inacessíveis de Os Lusíadas, bem como de outras épicas quinhentistas e seiscentistas, em edições que contribuem sobremaneira para o conhecimento da obra de Camões e da sua recepção, na poesia e na crítica, nos séculos que se lhe seguiram. Publicou-se o primeiro dicionário de Camões. Organizaram-se congressos que abordaram a obra de Camões nos seus mais variados aspectos e sob diferentes pontos de vista. Por fim, mas não menos importante, prepara-se, em parceria luso-brasileira, a edição crítica de Os Lusíadas. Duzentos anos depois da primeira tentativa séria de editar criticamente a epopeia camoniana, é mais do que oportuno reunir, em Setembro de 2018, alguns dos melhores especialistas mundiais de Camões para fazer o estado da arte em matéria de Estudos Camonianos. Deste modo culminará uma devida homenagem ao Morgado de Mateus que, em 1817, homenageou Camões dando à estampa, em Paris, a sua edição monumental de Os Lusíadas. Organizar, sob os auspícios da Fundação da Casa de Mateus, um encontro de críticos literários, filólogos, historiadores, classicistas e estudiosos de Camões, com a finalidade de filtrar e expor o que de melhor se faz hoje nesta área cada vez menos exclusiva dos lusitanistas, é decerto um modo digno de comemorar o bicentenário da edição pioneira e do cosmopolitismo intelectual de D. José Maria de Souza Botelho.