A Edição Monumental de Os Lusíadas de D. José Maria de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos, 5º Morgado de Mateus, (Paris 1817, oficinas de Firmin Didot) é constituída por 210 exemplares em papel, com 13 gravuras, uma por cada Canto, duas de Luis de Camões e uma de D. José Maria, e contém ainda uma Vida de Camões e notas do editor.

Para além destes 210 exemplares, oferecidos às Bibliotecas Reais e a amigos e conhecidos em Portugal e no estrangeiro, D. José Maria mandou fazer um exemplar único em dois volumes, em velino, com caracteres tipográficos únicos escolhidos pelo Morgado e com os desenhos originais – por Fragonard, Desenne e Gerard -, e avant la lettre de cada uma e as gravuras definitivas, com uma encadernação excepcional que vinculou ao Morgadio, assim como as chapas de cobre usadas na impressão das gravuras com a proibição da sua reutilização. Os fundes dos caracteres tipográficos foram mandados destruir.

“a perfeição e luxo, modernamente introduzido na typographia; tudo quanto as artes do desenho e da gravura podem produzir com mais graça e elegância; tudo em fim quanto se deve esperar da exactidão e perspicácia de um editor sábio e zeloso pela gloria nacional: tudo se poz em uso para levantar um monumento digno de Camões, digno da pátria que este illustre poeta tanto engrandeceu, e digno d’aquelle que tomou a seu cargo esta nobre empreza”. (G.1118.04, pág.3)

In Parecer da Academia das Ciências

 

Os gravadores: Gérard, Fragonard Fils e Desenne

A direcção artística da obra foi confiada ao pinto F. Gérard (muito afamado em Paris) tendo em vista a unidade de concepção, a identidade e o estilo.

O próprio Gérard foi o autor do busto de Camões (a primeira estampa) circundado pela ornamentação do desenhador L. Visconti.

Os autores das restantes composições foram Desenne para o segundo retrato e para os cantos I, III e IX; e Fragonard para os cantos II, IV, V, VI, VII, VIII e IX.

A Gérard, Desenne e Fragonard foram apresentadas breves passagens dos Lusíadas relativas ao acontecimento que deveria ser ilustrado. Assim:

 

I – Conselho dos Deuses

Sustentava contra elle Venus bella

Affeiçoada á gente Lusitana

Por quantas qualidades via nella

Da antiga tão amada sua Romana

Canto I. Est. 33

 

 

II – Visita do Rei de Melinde a Gama

Já no batel entrou do Capitão

O Rei, que nos seus braços o levava

Canto II. Est. 101

 

 

III – Assassinato de Inês de Castro

Tu só, puro Amor, com força crua

Que os corações humanos tanto obriga

Deste causa à molesta sorte sua

Como se fora pérfida inimiga

Canto III. Est. 119

 

 

IV – Sonho d’el Rei D. Manuel, no qual lhe aparecem os rios Indo e Ganges

Ó tu, a cujos Reino e Coroa

Grande parte do mundo está guardada,

Nós outros, cuja fama tanto voa,

Te avisamos que he tempo que já mandes

A receber de nós tributos grandes

Canto IV. Est. 73

 

 

V – Aparição do Gigante Adamastor, na passagem do Cabo de Boa Esperança

Mais hia por diante o monstro horrendo

Dizendo nossos fados, quando alçado

Lhe disse eu: Quem es tu?…

Canto V. Est. 49

 

 

 

VI – Vénus aplaca os ventos e a tormenta

Abrandar determina por amores

Dos ventos a nojosa companhia,

Mostrando-lhe as amadas nimphas bellas,

Que mais formosas vinham que as estrellas

Canto VI. Est. 87

 

 

VII – Desembarque de Gama em Calecut

Na praia hum regedor do Reino estava,

Que na sua lingoa Catual se chama,

Rodeado de Naires, que esperava

Com desusada festa o nobre Gama.

Canto VII. Est. 44

 

 

VIII – Segunda Audiência do Samorim ao Gama

O grande Capitão chamar mandava;

Aquém chegado disse: Se quizeres

Confessar-me a verdade limpa e nua,

Perdão alcançarás da culpa tua

Canto VIII. Est. 60

 

 

IX – Ilha de Vénus

Desta arte em fim conforme já as formosas

Nimphas, co’os amados navegantes,

Os ornam de capellas deleitosas,

De louro, e de ouro, e flores abundantes

Canto IX. Est. 84

 

 

X – Audiência d’el Rei D. Manuel a Gama

E a sua Pátria, e Rei temido e amado,

O premio, e gloria dão, porque mandou,

E com títulos novos se illustrou

Canto X. Est. 144

 

 

A execução da gravura das chapas foi confiada, escrupulosamente, aos que formavam naquela época o grupo mais distinto de gravadores em cobre: F. Lignon, Forsell, Massard, Oortman, Henri Laurent, Bovinet, Pigeot, Toschi, Forster, Richomme.

 

O estampador de todas as chapas foi Durand.

 

As estampas são consideradas como verdadeiras obras de arte, tanto por profissionais como por amadores, alguns dos quais possuem colecções avulsas compradas pela maior parte em Paris, onde apareciam no mercado, por certo após o óbito dos artistas que trabalharam na obra e que conservaram em seu poder as provas ou exemplares perfeitos.

O Morgado de Mateus conservou em seu poder as primeiras provas tipográficas, juntamente com as chapas em cobre, hoje ambas expostas na biblioteca da Casa de Mateus.

 

Caixa 13 Diários d’Os Lusíadas

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