A Fundação da Casa de Mateus, propõe, ao longo do ano de 2018, apresentar e explicar cada mês documentos representativos do seu Arquivo.

A Fundação da Casa de Mateus apresenta, neste mês de Julho, através do seu site, documentos representativos do seu Arquivo. Neste mês apresentamos uma folha de rosto da edição de Os Lusíadas mandada fazer por D. José Maria do Carmo de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos, anotada pelo próprio, da sétima secção (1806-1825) do Sistema de Informação da Casa de Mateus (SICM).

 

Camões, Luís Vaz de, 1524?-1580

Os Lusíadas: Poema épico / de Luís de Camões Nova ed. correcta, e dada à luz / por Dom Joze Maria de Souza-Botelho, Morgado de Mateus, sócio da Academia Real das Sciencias de Lisboa. – Paris: Officina Typographica de Firmin Didot, 1817.- [8], CXXX, [2], 413p.;37cm.- Contém anotações ms. de José Maria de Souza-Botelho.-Lombada em pele. Literatura portuguesa-poesia épica.

 

Conhecido pelo Morgado de Mateus, D. José Maria do Carmo de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos nasceu no Porto a 9 de Março de 1758 e foi baptizado no dia 2 de Junho do mesmo ano. Morreu em Paris no dia 1 de Junho de 1825. Foi herdeiro do Morgadio de Mateus, bem como dos Morgadios da Cumieira, de Moroleiros, de Arroios e de Fontelas.

Viveu no estrangeiro a maior parte da sua vida, tendo ocupado diversos cargos diplomáticos em vários países, entre os quais Suécia, Dinamarca, França, Rússia.

Casou em Lisboa com D. Maria Teresa Soares de Noronha, no dia 23 de Novembro de 1783. Dois anos depois nasceu seu filho, D. José Luís de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos. Em Junho desse mesmo ano a sua esposa morre, ficando a educação de seu filho a cargo de sua mãe D. Leonor de Portugal. À mãe coube também a administração da Casa de Mateus. Depois da morte desta, em 1806, D. José Maria do Carmo de Sousa delega a administração da Casa em vários procuradores da sua confiança.

Casou pela segunda vez em Paris, no dia 17 de Outubro de 1802, com D. Adélaïde Marie Emilie Filleul, Condessa de Flahaut.

Por morte de seu pai, em 1799, regressou a Portugal para tratar de assuntos familiares. Ocupou-se da organização do arquivo da Casa, reunindo em Gavetas a documentação mais antiga e importante da administração da Casa, prosseguindo o esforço iniciado por seu pai para proteger o património herdado. D. Luís António de Sousa Botelho Mourão tivera a preocupação de fazer vinculação de bens, renovação de prazos e demandas pela posse de vários vínculos, introduzindo um princípio de ordem que D. José Maria continuou ainda em vida de D. Leonor de Portugal. Foi para que se respeitasse este princípio que D. José Maria deixou instruções a seu filho para a administração da Casa: (…) Eis aqui o motivo de fazer-te este papel o qual principia por uma genealogia da nossa família e por mostrar-te o que a Casa adquiriu (…) Daqui virás a conhece-la no seu estado e nos direitos, estes são os fins porque este estudo genealógico é útil ao administrador da Casa (…).

D. José Maria foi um dos primeiros fidalgos a estudar no colégio dos Nobres, usufruindo de toda a experiência e métodos de ensino portugueses do Século das Luzes. Foi um dos primeiros alunos a frequentar a Universidade com as novas reformas implementadas pelo Marquês de Pombal. Entre 1772 a 1778 esteve em Coimbra, no Colégio de São Jerónimo, onde se formou em Matemática.

Após a sua formação académica, foi para Chaves enveredando pela carreira militar onde obteve grande reconhecimento pelo seu brilhante desempenho militar na região de Trás-os-Montes. Foi nomeado no dia 10 de Setembro de 1780 Alferes da 1ª Companhia no Regimento dos Dragões da Cavalaria de Chaves. No dia 24 de Março de 1784 foi nomeado Tenente e em Janeiro do ano seguinte Capitão.

Em 1791 no dia 11 de Julho foi nomeado Conselheiro do Rei e armado Cavaleiro da Ordem de Cristo na Real Colegiada da Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos freires da Corte.

No mesmo ano, foi dada confirmação por decreto do dia 30 de Setembro, do título de Ministro enviado à Corte de Estocolmo (Suécia). Na mesma altura, no dia 8 de Outubro, recebeu o benefício de tença de 12 000 réis e com esta nomeação recebe o título de Cavaleiro.

Este será o ponto de partida de uma carreira diplomática imprevista, no entanto verifica-se que em todos os cargos diplomáticos que foi desempenhando em vários países, revelou um especial interesse pelas questões militares. Segundo Anne Gallut, consta que no ano de 1793 se encarregou do comércio da Suécia, expedindo vários despachos com vários detalhes precisos sobre armas, marinha e bancos do mesmo país. Participou em várias missões diplomáticas: em 1795 esteve em Hamburgo, passou pela capital da Prússia, onde permaneceu até 1797, regressando em Julho. Ainda em 1797, foi para Copenhaga (Dinamarca) com o cargo de Ministro Plenipotenciário que desempenhou até Abril de 1799.

Em 1801 foi para Espanha como Embaixador de Portugal em Madrid, onde foi encarregado, juntamente com a Espanha, de negociar a paz entre Portugal e França. Não obteve o sucesso esperado e acabou mesmo por criar alguns dissabores com a Espanha. Depois de muito empenho e esforço, o Morgado de Mateus conseguiu negociar a paz com ambos os países. Nesse mesmo ano foi enviado extraordinário à Corte de Viena de Áustria para tratar dos interesses de Portugal no congresso de Amiens.

Foi nomeado ministro de Portugal junto do primeiro cônsul Bonaparte, cargo que desempenhou brilhantemente. No entanto, foi a questão do general Lannes, e outras intrigas e invejas de que diz ter sido alvo devido à sua nomeação para a embaixada de Paris, que originou a sua transferência para a corte da Rússia, sendo substituído em Paris por D. Lourenço de Lima. Esta situação levou-o a redigir uma carta ao Príncipe Regente D. João VI expondo os factos de queixa contra os seus inimigos. Não é possível confirmar se esta carta foi enviada ou não, uma vez que o próprio D. José Maria refere que só deve (…) ser entregue nas mais oportunas circunstâncias (…).

Em 1806, quando se encontrava em Berlim, recebeu a notícia que tinha sido admitido como membro da Academia Real das Ciências de Lisboa.

Para além de ter prosseguido a sua actividade diplomática, o Morgado de Mateus dedicou os últimos anos da sua vida à publicação de uma grande obra: a célebre edição ilustrada de Os Lusíadas. No museu da Casa de Mateus encontra-se habitualmente exposto um exemplar desta obra com apontamentos manuscritos de D. José Maria que terá constituído prova tipográfica da edição.

José Maria de Sousa desenvolveu o gosto pela literatura camoniana desde o tempo que andava a estudar em Coimbra, tendo sido influenciado pelo seu professor de geometria José Anastácio da Cunha, um aficionado por Camões. Mais tarde, depois da publicação da sua célebre edição de Os Lusíadas, explicará a seu filho as razões de tal feito: (…) indignado do esquecimento ingrato da nossa nação, imortal poeta que a cantara e imortalizara, me ocorreu suprir a falta de monumento erigido ao nosso Camões, por dar uma soberba edição dos seus Lusíadas. Sentia ao mesmo tempo a humilhação de sermos os únicos que não possuíamos uma boa edição dele, nem uma só de luxo, entre as nações europeias (…).

Esta obra monumental envolveu um grande trabalho de pesquisa literária. Destacam-se nesta os espectaculares desenhos para gravuras da autoria de Fragonard e Desenne. Estes desenhos custaram 300 francos cada e 1200 a 1500 francos as respectivas chapas de impressão. As gravuras, devido ao primor artístico que envolviam, só foram terminadas em 1816. Todo este trabalho de preparação da edição dos Lusíadas levou quatro anos, mais dezassete meses para a impressão desta edição.

O trabalho de impressão desta obra foi atribuído à tipografia Firmin Didot, que se encarregou de trazer expressamente o papel de Annonay, tendo sido realizados 210 exemplares. A despesa da edição desta obra perfez uma soma de 51.152 francos e 40 cêntimos. Estes exemplares foram oferecidos às entidades mais destacadas de Portugal e do estrangeiro. No Arquivo da Casa de Mateus conservam-se muitas cartas de agradecimento e reconhecimento, entre as quais salientamos: Alexander von Humboldt, José Bonifácio de Andrade, o Secretário da Real Academia das Ciências de Lisboa, o Papa Pio VII, Wellesley (Duque de Wellington), o Marquês de Campo Maior, Beresford e o Duque de Richelieu, entre outras personalidades ilustres.

Em 1818, a Real Academia de Lisboa fez um relatório crítico à edição dos Lusíadas de D. José Maria. No arquivo da Casa é possível localizar exemplares impressos desse mesmo relatório anotados pelo próprio Morgado, bem como cartas trocadas com seu sobrinho, o Visconde da Lapa e apontamentos no sentido de elaborar uma resposta a essa mesma critica.

No dia 1 de Junho de 1825 morreu na sua casa em Paris às três horas da manhã. A seu pedido foi enterrado no cemitério Pire-Lachaise, na secção 30, linha 8. Uns meses depois, a 25 de Agosto procederam à sua homenagem fúnebre na Academia Francesa, onde foi lida a Ode à la mémoire du Comte de Sousa. Em Agosto de 1965, os seus familiares procederam à trasladação do corpo para a Capela de Nossa Senhora dos Prazeres na Casa de Mateus, onde D. José Maria do Carmo de Sousa fora baptizado.

 

 

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