Excelentíssimo Senhor Presidente da República,

Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Bispo de Vila Real,

Excelentíssimo Senhor Ministro da Cultura,

Excelentíssimo Senhor Presidente da Câmara de Vila Real,

Excelentíssimo Senhor Presidente da Fundação da Casa de Mateus,

 

Amigos,

Peço-vos licença para convocar desde já a memória de Dinis de Portugal, homem de letras que incrustaria na sua coroa de rei versos soprados pela aragem dos pinhais. Prémios assim não se conquistam, nem se atribuem, porque na verdade resultam da harmonia que num momento se estabelece entre a mão que escreve e as linhas que duram o tempo que Deus quiser. Saúdo pois um monarca afinado pelos ritmos da Natureza, e brindado pelo dom de conjugar o mando com o devaneio. Refrescando o estatismo do poder com a volatilidade do verbo, Dinis oferece-nos um limpidíssimo veio de águas efémeras, mas afinal sem princípio, nem fim. E o predominante prosador que sempre me supus, e que não raro cobiça a voz dos que a erguem muito além da fala, dificilmente aprenderá essa arte que, na aparência desobrigada ao trabalho, postula um ofício de intangibilidades, bem superior àquele que recorre à mais escura ferramenta da forja. Que um livro da minha lavra tenha chegado a este nome, e por generosa mercê de quem o entendeu digno de tal, só poderá suscitar o júbilo maculado pela consciência do arbítrio do mundo.

 

Deitado sobre o lado esquerdo, “o construtor de naus a haver” insistiria em que o paramentassem de um manto de damasco que a sorte pouparia ao caminho de toda a carne. Por certo em cumprimento de uma determinação sua, ou de alguém imbuído do espírito que o soberano de Portugal respirava, bordar-lhe-iam a oiro na orla da mesma capa uma teoria de pinhas galaico-portuguesas, dessas que faziam os ganapos trepar às ramas mais altas, a fim de que se alimentasse a consoladora florescência do lume do lar. E na delicadeza do lírico governante, virtude em regra ausente em quem administra e julga, transitará a atenção às coisas pequeninas, os achados de cada dia, e talvez a angústia pendente sobre uma sentença de morte. Numa das sapatas do seu túmulo na Capela do Evangelho, do Mosteiro de São Dinis e São Bernardo de Odivelas, varrido pelo frio do inverno de séculos e séculos, esculpir-se-ia o combate singular com um urso, metáfora da constância da geral peregrinação. E creio que em prélios deste jaez se inclui o que se sublinha aqui, e agora, o arreganho assustado que a pena que risca a folha trava com a besta da incompletude, e da imperfeição. Vejo Dinis a ensinar-nos como se rasura uma cadeia de sílabas, ou como se transmuda em melodia o chinfrim das flautas, e a dissonância dos alaúdes. E prometo-me a outro texto, a outro texto, e a outro texto ainda, como ele se votaria “na noite” do seu “cantar de amigo” ao acorde adivinhado que nunca se alcança.

 

Estimados e simpáticos membros do júri do Prémio Dom Diniz, da Fundação da Casa de Mateus, não duvido de que na vossa deliberação influísse sobremaneira a grandeza do poeta real, e a vontade de perpetuamente o celebrar. Mas não consigo furtar-me a suspeitar de que na vossa descoberta do pretexto para isso se insere um grão de sal de desfocagem do propósito, ou de falha da pontaria.

 

Querido Amigo Fernando de Albuquerque, os amantes sem dinheiro da nossa geração, e quer em Portugal, quer por essa Europa fora, contrairiam o hábito de transformar em candeeiro de leitura uma garrafa extraordinária, de um rosé extraordinário, e festejavam à sua claridade o afecto que os unia. É a esse longínquo companheiro de lances suaves, ou arrebatadores, que desejo voltar, colocando na área da sua luminescência um cancioneiro aberto na página enrugada onde os nossos olhos não deixarão de descortinar,

 

“Vi hoj’eu cantar d’amor

en un fremoso vergeu

uña fremosa pastor.”

 

 

Muito obrigado!

 

Mário Cláudio