ENTREGA DO PRÉMIO D. DINIS A MÁRIO CLAÚDIO – 30. 09. 2017.

 

Estamos hoje aqui reunidos para entregar o Prémio D. Dinis a Mário Cláudio pelo seu belíssimo romance Astronomia – um livro cuja leitura representou para mim uma das mais enriquecedoras experiências dos últimos anos. Senhor de uma vasta e original obra literária – em que me permito destacar a Trilogia da Mão nos anos 80 (Amadeo, 1984; Guilhermina, 1986; e Rosa, 1988), mas também A Quinta das Virtudes (1990), Tocata para Dois Clarins (1992), As Batalhas do Caia (1995), Ursamaior (2000), Oríon (2003) ou Retrato de Rapaz (2014) – , Mário Cláudio oferece-nos, com a publicação desta apetecível Astronomia, a magnífica reconstituição de uma vida humana, neste caso inspirada na própria existência do autor.

Quem acompanhe e conheça bem o percurso de Mário Cláudio, estaria à espera, mais tarde ou mais cedo, de um livro como este, de índole acentuadamente proustiana, em que recuperamos as várias fases da vida já longa de um homem que a tem sabido preencher de múltiplos modos, e para quem o sabor da madeleine de Proust pode transformar-se na textura da terra do jardim onde brincava em criança, jogando ao pião, enquanto se distraía a observar com atenção lesmas e caracóis. E já que mencionei a madeleine proustiana, recordo, neste caso, os velhos segredos guardados pelas nossas avós, como o dos célebres “dedos de dama”, cuja receita surge na íntegra em forma de homenagem.

Estamos, pois, perante isso a que poderia chamar-se uma auto-biografia. No entanto, a esse propósito –  e quanto à dimensão inclassificável desta obra – , escutemos o próprio Mário Cláudio:

“Queria esclarecer que não é uma autobiografia exactamente, é alguma coisa que decorre entre a auto-biografia e a ficção. Quis pegar numa vida, neste caso na minha, e introduzir-lhe alguns elementos ficcionais. Coisas que eu provavelmente teria imaginado mas que não aconteceram. Creio que a vida de todos nós se faz não só de factos mas também de coisas que imaginamos.”

É desta subtil mistura entre memória e imaginação que se tecem os fios de uma longa e fascinante viagem ao sabor de lembranças cuja maior ou menor intensidade se vai graduando segundo os flashes mais antigos do autor, jogando sempre – perante o próprio narrador e os leitores – um jogo de luzes e de sombras, num efeito de chiaroscuro em que a fluidez do passado parece mover-se diante dos nossos olhos, desdobrando-se em silhuetas capazes de ganharem vida nova graças à magia que as recria a cada instante, numa operação de metamorfose cujos catalisadores essenciais são os afectos: os afectos de uma criança que cresce num ambiente familiar confortável, talvez demasiado confortável, protegido e rodeado de criadas; os afectos de um mancebo que passará pela Guerra Colonial na Guiné, de onde irá trazer uma medalha; os afectos de um jovem culto e sensível quando estuda na Universidade ou percorre uma carreira na Função Pública sem grande entusiasmo; os afectos desse mesmo jovem quando, com cerca de 25 anos, descobre o amor e a sexualidade (neste caso a homossexualidade), debatendo-se com os interditos inerentes a uma educação católica e a um país ainda essencialmente conservador quanto aos costumes; ou, enfim, os afectos desse adulto já considerado escritor pelos seus pares, mas um escritor que brinca com a vertigem de viagens promocionais em que muitos autores insistem em afadigar-se, num corrupio um pouco insano que lhes preenche os dias e as noites.

Por essa atitude crítica perante os seus pares reconhecemos aquela que é, quanto a mim, uma das principais qualidades literárias deste romance e aliás de grande parte da obra de Mário Cláudio: refiro-me à ironia muito fina que impregna grande parte das suas páginas, sempre detentoras de uma específica visão do mundo, assente numa escrita no sentido mais forte do termo, isto é, apta a gerar uma atmosfera mágica, um sortilégio ao qual nos rendemos, extasiados por este universo feito de três partes diferentes – “Nebulosa”, “Galáxia” e “Cosmos” – , por onde regressamos às ladainhas e aos medos de uma infância em que se rezavam longas orações pelas almas do Purgatório.

Para concluir, direi que estamos perante uma astronomia das almas, digamos assim. Uma astronomia que podemos estudar graças a telescópios quase sempre situados em lugares altos, como o do Monte Palomar (que aliás deu um título a Italo Calvino). Aqui, não se trata propriamente de um telescópio, mas de um estranho aparelho que actua como se as suas lentes fossem as de um caleidoscópio – um caleidoscópio através do qual podemos maravilhar-nos com os planetas, as estrelas, os meteoritos, os cometas, os asteróides e todos os corpos celestes de um firmamento infinito, cujas luzes cintilam e nos seduzem no meio do imenso espaço negro que nos rodeia (e de que também somos feitos). Precisamos dessa diversidade infinita, mesmo correndo o risco de nos deixarmos queimar pelas estrelas, quando se aproximam de nós. Precisamos da sua luz, do seu calor, da sua energia.

Que essas luzes continuem a brilhar na escrita de Mário Cláudio, bem como na sua e nas nossas vidas, é o desejo que hoje manifesto, aproveitando para o felicitar por este livro ímpar na sua obra e na literatura portuguesa.

 

Casa de Mateus, 30 de Setembro de 2017

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