O júri do Prémio D. Diniz, constituído por Nuno Júdice, Fernando Pinto do Amaral e Pedro Mexia atribuiu, por unanimidade, o prémio de 2017 a Mário Cláudio pelo seu livro “Astronomia”, da editora D. Quixote.

O prémio D. Diniz regressa ao fim de uma breve interrupção de cerca de 5 anos. Esta pausa permitiu ao júri alargar a sua escolha a livros publicados durante este período, o que é o caso de «Astronomia» de Mário Cláudio, publicado em 2015. Fica assim explicada a decisão de incluir na lista dos prémios D. Diniz esta obra de um dos grandes autores da nossa literatura contemporânea cuja escrita percorre as fronteiras dos géneros literários, entre ficção, memória, autobiografia, ensaio.

O título «Astronomia» vem na sequência de outros alusivos ao mundo celeste: «Ursamaior», «Oríon», «Gémeos». «Astronomia» será, assim, como que o culminar dessa enumeração constituindo, não direi a cúpula dessa trilogia «astral», mas chamando a atenção para um imaginário que associa ao mundo quotidiano uma dimensão transcendente; e esta relação prolonga-se na estrutura da obra em que o relato do curso de uma vida também se distribui ao longo de três grandes secções cujos títulos, «Nebulosa», «Galáxia» e «Cosmos», organizam um tempo que se distribui pelas três idades do narrador: o menino, o rapaz e o velho, apresentados não necessariamente por esta ordem. E percorremos assim as várias fases da vida de um narrador que, a partir dela, constrói um monumento biográfico sobre as ruínas de uma casa demolida, seguindo a tradição que vem do Eça da «Ilustre casa de Ramires», do Aquilino da «Ilustre casa de Romarigães»,  do Ruben A. da «Torre da Barbela», do Carlos de Oliveira de «Finisterra», entre tantos outros da nossa literatura que fundaram simbolicamente na história e ruína de uma casa o ciclo do tempo.

No entanto, este é um livro inteiramente inovador, embora o possamos incluir numa outra linha narrativa de Mário Cláudio que tem como centro a vida de protagonistas, reais ou imaginários: os livros que compõem a «Trilogia da mão», dedicados a Amadeo de Souza-Cardoso, Guilhermina Suggia e Rosa Ramalho, «Henriqueta Emília da Conceição», «Peregrinação de Barnabé das Índias», «Camilo Broca», «Boa noite, Senhor Soares», ou o mais recente «Os naufrágios de Camões»;  e esse imenso «Tiago Veiga (Biografia)», incidindo sobre um heterónimo ou semi-heterónimo do autor.

Será este último o que mais se aproxima de «Astronomia», num efeito de espelho em que o mundo do escritor ideal que é o esteta Tiago Veiga, um alter ego sofisticado que viaja e vive em sítios refinados e aristocráticos, e cultiva o soneto na sua forma mais clássica, tem o seu reverso no personagem aparentemente de «Astronomia» que relata, na primeira pessoa, com uma exactidão por vezes cruel, o decurso da sua existência, da infância à idade madura, no cenário da grande casa demolida da sua infância.

Não nos iludamos, porém. «Astronomia» não se inscreve no género autobiográfico, embora utilize esse modelo. De acordo com um contributo recente para a teoria dos géneros, seria o termo «autoficção» que talvez mais se aproxime de uma classificação da obra que tem percursores como «As viagens na minha terra» de Garrett ou «O livro do desassossego» de Bernardo Soares, fazendo confluir memórias e factos reais com outros imaginários. Mas «Astronomia», para lá disso, é também um romance, e assim deve ser lido, para lá da tentação de identificar o eu narrativo com o eu real, pesem as possíveis e talvez efectivas semelhanças entre ambos. Retrato de um personagem da nossa sociedade do Norte, sem dúvida, mas também retrato da segunda metade portuguesa do século XX, com as suas misérias e grandezas, em que nos é dada uma imagem lúcida e crítica do mundo em que a Ditadura, a guerra colonial, o 25 de abril, e finalmente a democracia, influem no percurso de alguém que coloca em primeiro lugar a sua independência face a ideologias e a poderes de várias ordens. E este percurso é feito através de uma voz que oscila entre a escrita e a oralidade, levando-nos a perguntar se estamos perante uma escrita falada ou uma fala escrita, sendo esta característica que afasta o seu estilo de um tom erudito, literato, e nunca rompe a comunicação com o leitor, embora nunca abdique de um uso lúdico de uma linguagem em que Eça, Camilo, Aquilino, para lá de poetas que lhe são familiares, como António Nobre, por vezes ecoam.

Mas o que este livro nos dá a ver, acima de tudo, é a viagem através de uma biblioteca: e é fascinante acompanhar a vida do narrador, a sua iniciação, a sua formação, através de um jogo de citações que surgem das estantes da memória, onde se encontram desde os livros de instrução primária, dos catecismos, das lengalengas e das orações, até aos autores que formam uma biblioteca escolhida de acordo com os pontos centrais da aprendizagem literária, de Cervantes a Rimbaud, dos irmãos Grimm a Hergé, de Dante a Álvaro de Campos, entre muitos outros; e este universo cultural é complementado por um outro, mais quotidiano, que vai do anúncio do iphone à referência à New York Review of Books. E no reverso deste domínio do mundo das palavras, em que a erudição e o kitsch muitas vezes se cruzam, temos a descrição de um outra aspecto mais concreto e bem menos poético que é a evolução de um corpo que, como a casa, se transforma e degrada com a idade, dada através de um realismo que pode ser incómodo para alguns puritanos, mas que corresponde a uma escrita inteiramente livre das condicionantes autocensórias que já não têm justificação nos dias actuais.

Quanto ao jogo das citações, nenhuma é arbitrária, servindo de contraponto a cada situação; e é nesse emparelhamento do poético da literatura e da realidade do ser que encontramos a lógica que subjaz à construção da obra, escrita numa prosa em que se reconhece, a cada página, o génio (uso a palavra no sentido próprio do engenho e arte camonianos) de Mário Cláudio, traçando um percurso iniciático que, nas páginas finais, encontra no universo da Demanda do Graal um outro modelo que reconduz à própria origem do género romanesco, na sua mais alta tradição.

Sem dúvida, argumentos mais do que suficientes para atribuir a «Astronomia» o prémio D. Diniz, incluindo Mário Cláudio numa lista que, de Agustina Bessa Luís a Sophia, Eugénio de Andrade ou José Saramago, entre tantos outros, inclui os mais prestigiados nomes da nossa literatura recente.

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