NÃO ME IMPORTO COM AS RIMAS (Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XIV)

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Ao longo de todo o mês, tomamos a poesia como tema e como impulso para uma interrogação incessante sobre as formas de reconstrução de nós mesmos e daquilo que nos rodeia. Uma vez por semana, poetas e amantes da poesia, entre Nuno Júdice, António Gonçalves, José Eduardo Reis e outras surpresas que se lhes juntarão, falam-nos e mostram-nos, dão-nos a ouvir o seu trabalho, ou partilham connosco a sua visão particular da matéria poética.

 

 

Entrevista a Nuno Júdice – 1 de Maio de 2020

 

Entrevista a Jorge Velhote – 7 de Maio de 2020

 

Entrevista a Ana Luísa Amaral – 11 de Maio de 2020

 

Entrevista a Ricardo Marques – 27 de Maio de 2020

 

Entrevista a José Eduardo Reis – 27 de Maio de 2020

 

 

Poemas

 

Segunda-feira (25/05)

Kenneth Koch

A Magia dos números e outros poemas

Tradução Coletiva (Mateus, Junho de 1991) revista, completada e apresentada por Pedro Tamen com a declaração de Ana Hatherly

 

PERMANENTEMENTE

Um dia os Substantivos estavam apinhados na rua.

Passou um Adjectivo, com a sua morena beleza.

Os Substantivos ficaram impressionados, comovidos, mudados.

No dia seguinte apareceu um Verbo, e criou a Frase.

 

Cada Frase diz uma coisa — por exemplo: «Embora estivesse um dia escuro e

[chuvoso quando o Adjectivo passou, hei-de lembrar-me da pura e doce

[expressão do seu rosto até ao dia em que me desvaneça da verde e

[eficaz terra.»

 

Ou: «Não te importas de fechar a janela, André?

Ou, por exemplo: «Obrigado, o vaso cor de rosa com flores, no parapeito da janela,

[mudou recentemente de cor para um amarelo claro, devido ao calor da

[fábrica de caldeiras aqui perto.»

 

Na Primavera as Frases e os Substantivos estavam em silêncio deitados na relva.

Uma Conjunção solitária clamaria aqui e ali: «E! Mas!»

Mas o Adjectivo não surgiu.

 

Tal como o adjectivo está perdido na frase,

Assim eu estou perdido nos teus olhos, ouvidos, nariz e garganta

– Enfeitiçaste-me com um só beijo

Indestrutível

Até a destruição da linguagem.

 

 

Terça-feira (26/05)

Demóstenes Agrafiotis

Sombras oblíquas

Tradução colectiva (Mateus, Outubro de 1992) revista e apresentada por Fernando Echevarría

 

MÁSCARAS

Passos

no dobrar da inocência

no interior da interpretação.

Risos e choro

soluço e veias no nosso evoluir.

Uma frieza brilha nas máscaras.

 

DEFINIÇÕES

Posso definir as palavras

como explosões de silêncio

ou eco da expectativa

ou hiatos abertos pelas acções

ou moléculas do futuro,

o eu reflectindo-se ao longo

da sucessão.

 

 

Quarta-feira (27/05)

Philip Levine

A pura verdade

Tradução Coletiva (Mateus, Junho 1991) revista e apresentada por Maria de Lourdes Guimarães

 

QUARTA-FEIRA

Poderia dizer que o dia começou

por detrás da Sierra;

na ramagem das laranjeiras a escada

a meio caminho das estrelas deu

uma sombra, e os frutos

orvalhados vestiram

a sua cor, luzidios

como um globo de fogo,

e quando acordei

estava só, e o quarto

silencioso, as paredes brancas,

o tecto branco, o enodado

soalho prenderam-me até

me sentar e agarrar

primeiro um copo

de água choca para soltar a língua

e, a seguir, o relógio de pulso comprado

antes de teres nascido e, quando as folhas batiam

contra a janela

a e poeira subia dourada no cálice do ar,

eu dei-te este nome.

 

 

Quinta-feira (28/05)

John Ashbery

Uma onda e outros poemas

Tradução colectiva (Mateus, Junho de 1991) revista, completada e apresentada por João Barrento  com a colaboração de Richard Zenith

 

PARADOXOS E OXÍMOROS

Este poema ocupa-se da linguagem a um nível muito simples.

Olha como fala contigo! Tu olhas pela janela

Ou finges estar nervoso. Já o tens, mas não o tens.

Passas-lhe ao lado, passas-te ao lado. Passam ao lado um do outro.

 

O poema está triste porque quer ser teu e não consegue.

O que é um nível simples? É isso e outras coisas,

Que ele põe em jogo formando um sistema. Jogo?

Bom, no fundo é isso, mas jogo para mim é

 

Uma coisa exterior mais funda, papéis assumidos em sonhos,

Como na distribuição das graças nestes longos dias de Agosto

Sem prova. Em aberto. E antes que o conheças

Ele perde-se nos vapores e no matraquear das máquinas de escrever.

 

O jogo foi jogado uma vez mais. Penso que só existes

Para me desafiar e fazê-lo, ao teu nível, e depois não estás lá,

Ou assumiste outra atitude. E o poema

Deitou-me suavemente a teu lado. O poema és tu.

 

 

Sexta-feira (29/05)

John Ashbery

Uma onda e outros poemas

Tradução colectiva (Mateus, Junho de 1991) revista, completada e apresentada por João Barrento  com a colaboração de Richard Zenith

ECO TARDIO

Sós com a nossa loucura e a flor preferida,

Vemos que não há mais nada sobre que escrever.

Ou antes, é preciso escrever sobre as mesmas coisas de sempre,

Do mesmo modo, repetindo vezes sem conta as mesmas coisas,

Para que o amor continue e a pouco e pouco vá mudando.

 

Colmeias e formigas têm de ser eternamente reexaminadas

E a cor do dia aplicada

Centenas de vezes e variada do verão para o inverno

Para que o seu ritmo desça ao de uma autêntica

Sarabanda e ela aí se feche sobre si mesma, viva e em paz.

 

Só nessa altura a crónica desatenção

Das nossas vidas nos poderá envolver, conciliadora

E com um olho posto naquelas longas opulentas sombras amareladas

Que falam tão fundo para o nosso mal preparado conhecimento

De nós próprios, máquinas falantes dos nossos dias.